Em primeira entrevista exclusiva a uma emissora de TV nacional após assumir o terceiro mandado como Presidente da República, e dias após os episódios de 8 de janeiro, o petista Luiz Inácio Lula da Silva fala sobre diversos detalhes em relação aos atos antidemocráticos que ele classificou como “tentativa de golpe de Estado” a jornalista Natuza Nery, da Globo News, que foi recebida no Palácio do Planalto. A entrevista foi ao ar hoje, 18 de janeiro, dez dias após o fatídico dia, no canal da emissora, no jornalístico de edição das 18 horas. Com mais de 50 minutos de duração, a entrevista foi ao ar na íntegra e mostrou diversos detalhes dos fatos ocorridos em 8 de janeiro do ponto de vista do próprio presidente, que vamos destrinchar a partir de agora.
A jornalista iniciou perguntando se em algum momento da invasão do Palácio da Alvorada e demais sedes dos Três Poderes, o presidente teve receio de perder o controle. Lula foi enfático ao responder que não, mas demonstrou ter encarado a situação com pulso, apesar da facilidade com que os terroristas invadiram o Palácio Presidencial.
“… Eu liguei pro General Gonçalves Dias… e eu dizia: – Oh ministro, onde que estão os soldados? Eu não via soldado! Eu só via gente entrando e não via soldado reagindo… Ele dizia que tinha chamado soldado, chamado soldado… e esses soldados não apareciam! Eu fui ficando irritado porque não era possível a facilidade com que essas pessoas invadiram o palácio do Presidente da República… E na verdade, eles não quebraram pra entrar, eles quebraram porque a porta estava aberta!”
Na sequência, Lula foi perguntado porque preferiu a intervenção militar e não a GLO (decreto de Garantia da Lei e da Ordem), questionando se a decisão vinha de algum temor por parte do presidente. Lula respondeu que tomou a decisão baseado na experiência anterior da GLO decretada no Rio de Janeiro durante o governo de Luiz Fernando Pezão e criticou o ato.
“Quando fizeram a GLO no Rio de Janeiro, o Pezão que era o governador, virou Rainha da Inglaterra…”
Lula ainda diz que não abriria mão de cumprir suas funções e que Polícia do DF teria sido conivente com o caso.
“Eu tinha acabado de ser eleito presidente da república… Eu fui eleito presidente da república e não ia abrir mão de cumprir com as minhas funções e exercer o poder na sua plenitude. Foi por isso que nós decidimos, ao invés de GLO, a gente fazer intervenção na polícia de Brasília que tinha sido conivente com o caso! […] E foi o que deu resultado.”
Lula disse que teve a impressão “de ser o começo de um golpe de Estado” e que os envolvidos estariam acatando às ordens que o ex-presidente Jair Bolsonaro teria dado durante muito tempo, alimentando o descrédito nos poderes constituídos e legitimamente eleitos, culpando ainda o tempo em que Bolsonaro ficou calado após a derrota nas eleições, e suas últimas decisões a frente do cargo, como não passar a faixa presidencial e ainda ter ido embora pros Estados Unidos, nas palavras de Lula, “como se estivesse fugindo, com medo de alguma coisa”.
FALHA NA SEGURANÇA
Uma das falas de Lula que chama atenção é o fato dele afirmar que a inteligência dos órgãos de segurança pública vinculados ao governo não previu nada sobre os ataques – que foram prenunciados publicamente em redes sociais. Lula agradeceu primeiramente aos governadores que atenderam a sua convocação a Brasília e, em sua análise, afirma que o golpe não teria vingado devido a reação imediata do governo e a união dos Três Poderes, além do apoio dos governadores dos Estados em defesa da democracia. Lula ainda cita que alguns dos invasores teriam conhecimento sobre os prédios invadidos e depredados na capital federal.
“Quem veio aqui Natuza era gente muito profissional. Tinha pessoas que eram militantes comuns, pessoas que estavam raivosas… mas o dado concreto é que segundo todo depoimento, às pessoas que vieram aqui eram profissionais – eram pessoas que conheciam o Planalto, eram pessoas que conheciam o poder judiciário, as pessoas conheciam a Câmara dos Deputados. […] Era gente que preparou isso durante muito tempo.”
Na sequência, Lula critica às forças de inteligência fazendo uma dura crítica: A minha inteligência não existiu!
“Eu saí daqui na sexta-feira com a informação de que tinha só 150 pessoas no acampamento, que estava tudo tranquilo… que não iam permitir que entrassem mais ônibus… que não iam permitir que entrassem mais ninguém – eu viajei pra São Paulo na maior tranquilidade! E aconteceu o quê aconteceu.”
E prossegue:
“Aqui nós temos inteligência do Exército, nós temos inteligência do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), nós temos inteligência da ABIN (a Agência Brasileira de Inteligência), nós temos inteligência da Marinha, nós temos inteligência da Aeronáutica… ou seja, a verdade é que nenhuma dessas inteligências serviu pra avisar ao Presidente da República que poderia ter acontecido isso. Se eu soubesse na sexta-feira que viriam 8.000 pessoas aqui, eu não teria saído de Brasília.”
Ainda na fala, Lula cita que nem a esquerda, durante a luta armada contra o regime militar de 1984, nunca havia depredado nenhum prédio público e foi taxativo ao classificar os atos como “uma prática fascista, nazista, raivosa” e que o povo brasileiro não estaria acostumado a ver no país tais práticas.
CASO ANDERSON TORRES
Ao citar o ex-ministro da Justiça do governo Bolsonaro e ex-secretário de segurança pública do Distrito Federal, Lula acusou Anderson Torres de saber antecipadamente dos atos terroristas. “Ele sabia o quê ia acontecer, foi embora e deixou o celular lá, pra quem sabe a gente não (poder) fazer às investigações.” Lula afirma que mesmo com a possível tentativa de Anderson Torres de atrapalhar às investigações, ele e todas os demais envolvidos nos atos, seja quem praticou o quebra-quebra, seja quem planejou, seja quem financiou, será investigado e condenado, sob risco, nas palavras do Presidente, da não-garantia da existência e da sobrevivência da democracia – num momento tão sensível da política brasileira.
Lula cita que “eles”, em provável referência a Bolsonaro e seus seguidores, permitiram que o governo fizesse algo que ele próprio cita que não queria fazer: um processo de investigação sobre tudo que aconteceu no país durante os últimos anos, e justifica: “É o quê a sociedade espera”.
NEGLIGÊNCIA QUANTO A SEGURANÇA DO PALÁCIO
Questionado sobre ter sido mais enérgico com a cadeia de comando das Forças Armadas, Lula disse que não poderia ter feito caça às bruxas sem fazer a devida análise dos acontecimentos e das devidas responsabilidades, mas revela que sua mágoa foi que houve negligência de quem deveria tomar conta do palácio, e cita a Polícia Militar que é quem tem a competência pela segurança do Distrito Federal.
“A impressão que a gente tinha era de que a Polícia estava ‘dando guarita’ às pessoas, estava protegendo às pessoas que estavam fazendo quebra-quebra.”
Ainda assim, Lula afirma que será investigado com toda paciência. “As pessoas que foram presas vão ser ouvidas, sabe, as pessoas vão ter direito a defesa… as pessoas vão ser punidas se a gente provar que eles foram culpados e que eles fizeram alguma coisa de anormal; fora disso, eles serão liberados.” Com o discurso, Lula afirma que todos terão presunção de inocência.
Ao ser perguntado sobre a conversa que terá com os comandos das Forças Armadas, Lula conta que pediu aos comandantes que cada um trouxesse suas demandas e necessidades para cada força, com o intuito de fortalecer as três forças – Exército, Marinha e Aeronáutica, com tecnologia militar, para que o Brasil tenha uma “indústria de defesa mais forte”. Na sequência, Lula diz que deixará claro aos comandantes sobre a necessidade de despolitizar às Forças Armadas, pois, segundo ele, quem for servidor de qualquer uma das forças e quiser fazer política, vai ter que largar a patente e voltar a ser um civil.
“É preciso que os comandantes assumam a responsabilidade de dizer (que) o soldado, o Coronel, o Tenente, o General, ele tem direito de voto, ele tem o direito de escolher quem ele quiser pra votar. Agora, como ele é um cargo de carreira, ele defende o Estado Brasileiro, ele não é o Exército do Lula, num foi do Bolsonaro, num foi do Collor… Essas instituições que dão garantia a esse país num precisa ter partido, num precisa ter candidato. Eles tem que defender o Estado Brasileiro. […] Quem quiser fazer política, tira a farda, renuncia ao seu cargo, cria um partido político e vai fazer política. Mas enquanto tiver servindo às Forças Armadas, enquanto estiver na Advocacia Geral da União, enquanto estiver no Ministério Público, essa gente não pode fazer política. Tá escrito na lei e é isso que eu quero que aconteça”, completou.
COMBATE AO FASCISMO
Perguntado sobre às questões da extrema-direita, e se pretende conversar com o presidente americano Joe Biden sobre uma possível aliança, ou mesmo pedir conselhos a Biden sobre como combater e sobre como governar com uma extrema-direita, Lula foi enfático em afirmar que a extrema-direita se espalhou pelo mundo, muitas delas “com vocações nazistas e stalinistas, e com a mais diferentes formar de agir”. O mandatário do Executivo ainda relata uma conversa que teve com o ex-primeiro-ministro grego, descrevendo que a linha de pensamento seria a mesma da extrema-direita brasileira: Pátria, Família e costumes e liberdade (inclusive religiosa) – lema originalmente usado por Mussolini durante os 20 anos de fascismo na Itália e introduzido no Brasil pela Associação Brazil Livre, que defendeu o nazismo em nosso país.

Lula avalia como um discurso “praticamente universal” em todos os lugares do mundo. Na sequência, Lula diz que derrotou Bolsonaro, mas que agora é necessário derrotar o fascismo existente no Brasil e conta com o quê ele chamou de “forças democráticas” para que se manifestem a favor da democracia. Questionado se ele considera Bolsonaro – carta fora do baralho – Lula disse que tudo dependerá do resultado das investigações e afirmou:
“Vai ter muito processo contra ele”.
Lula diz que espera que a Justiça Brasileira seja mais severa na apuração e julgamento dessas pessoas. “Quero que todo mundo tenha a presunção de inocência que eu não tive” – citando o julgamento parcial que teve a partir da Operação Lava Jato sob a atuação do ex-juiz Sergio Moro (União), que foi eleito senador pelo Paraná nas últimas eleições.
Ainda respondendo sobre uma possível aliança internacional para o combate do fascismo, Lula disse que irá se reunir com diversos chefes de outras nações, como o caso do encontro com o presidente americano Joe Biden, com o presidente chinês Xi Jinping, com o chanceler alemão Olaf Scholz – entre outros líderes que Lula já tenha conversado para sugerir aos líderes progressistas, o quê Lula chamou de “ação de enfrentamento para impedir o ressurgimento do nazismo e do fascismo”. Lula ainda fala sobre mostrar pras pessoas que o regime democrático seria o mais viável, mas que isso só seria possível a partir de uma democracia onde, segundo Lula, às pessoas não passem fome, onde às pessoas tenham emprego e renda, onde haja a redução do feminicídio e do assassinato de pessoas negras na periferia, além da redução da ociosidade infanto-juvenil com a presença do Estado nas favelas, com saúde, lazer, esporte e educação de qualidade. Para isso, uma das apostas do governo seria a Educação em Tempo Integral. Segundo Lula, “o tempo que esse jovem estiver dentro de uma escola, a gente vai ter garantia de que esse jovem não vai ser vítima de uma bala perdida, como acontece muitas vezes […]”.
CPI DOS ATOS ANTIDEMOCRÁTICOS
A jornalista Natuza Nery questionou Lula sobre o apoio a criação de uma CPI para investigação dos atos antidemocráticos de 8 de janeiro. Lula respondeu prontamente: “Não”. Ele argumentou que existem meios para apurar tudo o quê aconteceu e disse que a criação de uma CPI para apurar os fatos ocorridos poderia atrapalhar e “causar uma confusão tremenda”. Ele justifica sua resposta concordando com a fala da jornalista de que a conclusão de uma CPI é imprevisível e que a Justiça já tem provas suficientes para julgar e punir os investigados. Ele conclui:
“O que você pensa que a gente vai ganhar com uma CPI? […] Se me pedissem um conselho, eu diria: Não façam uma CPI, porque não vai ajudar”.
IMPOSTO DE RENDA E ECONOMIA VERDE
Lula ainda falou sobre a divergência que ele ainda tem com a equipe econômica em mudar a atual política econômica e tributária. Criticou a política de independência do Banco Central, questionando o quê se acreditava que seria melhorado com isso. “Eu acho isso uma bobagem. Eu duvido que esse presidente do Banco Central seja mais independente do que foi o Meirelles”, se referindo ao ex-ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, que atuou de 2016 até meados de 2018 no governo petista.
E questionou:
“Por que um banco independente, a inflação tá do jeito que tá e os juros tá do jeito que tá?”
Lula afirma que durante a pandemia, quem era rico ficou ainda mais rico, e quem era pobre ficou ainda mais pobre. A afirmação de Lula segue uma infeliz tendência mundial analisada pelo Banco Mundial por ocasião do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. Segundo as conclusões do relatório, desde 2020, o 1% da população mais rica já possui 63% da riqueza global.
Lula também criticou fortemente a cultura estabelecida nos anos anteriores de que pessoas que trabalham a partir de aplicativos não seriam empreendedores, a partir do momento que a relação de trabalho não lhes oferece nenhum tipo de seguridade social e afirma que o governo precisa garantir isso.
Questionado ainda sobre a necessidade de aumentar a arrecadação e reduzir a carga tributária, Lula aponta o caminho apresentado desde a campanha eleitoral: aumentar a carga tributária para as pessoas mais ricas e reduzir para as pessoas que ganham até 5.000 reais de renda. Lula ainda cita que o cenário atual é gerado da ganância das pessoas mais ricas.
Lula ainda cita a questão dos grandes empresários do país que sonegam impostos e afirma:
“Eu não sei quem é, mas nós vamos fazer uma fiscalização pra saber quem que sonega nesse país!”
Ele afirma que o montante de impostos que os grandes empresários deixam de pagar somam a quantia de 1 trilhão e 600 bilhões de reais. “O Estado não pode abrir mão disso”, afirma Lula.
E conclui:
“A gente tem que dar garantia pra sociedade brasileira que a gente não vai gastar mais do que a gente ganha, mas temos que mudar o discurso. A gente não pode dizer que o dinheiro pra educação é gasto; o dinheiro pra educação é investimento. O dinheiro pra saúde não é gasto, é investimento. O dinheiro que você usa pra cuidar das pessoas não pode ser tida como gasto. Gasto é o dinheiro jogado fora.”
Sobre a Amazônia, Lula afirmou que é necessário aumentar o contingente policial, e afirma que planeja envolver mais agentes da Polícia Federal e do Exército na defesa das fronteiras brasileiras. Ainda nesse sentido, afirmou que o governo assumiu o compromisso de até 2030 alcançar o nível de desmatamento zero na Amazônia e que iria buscar isso com todas as forças. Citou a criação de uma aliança continental com os países que fazem fronteira ou que possuem alguma parte da Amazônia dentro do seu território e cita a questão do crédito de carbono zero, com o intuito de gerar capital para o Brasil a partir da preservação do meio ambiente.
“ESSE É O MANDATO DA MINHA VIDA”
Lula chega às considerações finais dizendo que só voltou a ser presidente porque acredita que é possível recuperar o país.
“Eu casei em maio do ano passado e eu não precisaria voltar a presidência, eu poderia viver minha vida com muita tranquilidade. Eu voltei, primeiro porque as pesquisas mostravam que eu era a única pessoa capaz de derrotar o Bolsonaro. […] Então agora eu tenho 4 anos… eu quero me dedicar 24 horas por dia… a Janja já sabe disso. Ela é minha parceira, ela sabe que ela tem que trabalhar também… ela vai fazer o que ela quiser. […] Nós dois queremos ajudar a reconstruir esse país. É minha profissão de fé agora. É meu compromisso com o povo brasileiro.”
Lula ainda cita que, nesse processo, irá “tratar bem a imprensa brasileira”, dizendo que é preciso desmentir e desmistificar o quê aconteceu no Brasil no período do governo Bolsonaro, se referindo a truculência com a qual a imprensa brasileira foi tratada pelo ex-mandatário, de 2019 a 2022.
“Esse é um período turvo da nossa história, que nós precisamos apagar”, disse Lula ao concluir.